segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Eu sou responsável...

"Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.

O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

- Por favor… cativa-me! disse ela.

- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.

- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto…

No dia seguinte o principezinho voltou.

- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.

- Que é um rito? perguntou o principezinho.

- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah! Eu vou chorar.

- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…

- Quis, disse a raposa.

- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.

- Vou, disse a raposa.

- Então, não sais lucrando nada!

- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:

- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas:

- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

- Adeus, disse ele…

- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa…

- Eu sou responsável pela minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.”

Trecho de O Pequeno Príncipe - Cap. XXI

Tem coisa mais ridícula do que achar que, realmente, nesse mundo, você pode, em algum momento, passar reto, sem influenciar a vida de alguém, e sem se deixar influenciar por esse alguém? Você já parou pra pensar que nem tudo depende da sua vontade e única e exclusivamente do seu bel-prazer? Ou então, que o preço da tranquilidade e temperança é um tédio sem limites e uma vida vazia e acomodada?



sábado, 31 de outubro de 2009

Para superar as perdas...

"É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê"
(Trecho da canção "Além do que se vÊ - 'Los Hermanos')

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Brasília

Esse fim de semana eu fui a Brasília e vi o céu azul, a terra vermelha e a lembrança de um tempo que era meu, embora eu não soubesse enquanto o vivia que ele seria tão breve. Eu não me apossei daquele tempo verdadeiramente, eu tentei vivê-lo intensamente, como tento hoje, mas tinha uma idéia de que ele seria eterno, e precisava ser passageiro. Na realidade, ele era tão eterno quanto passageiro, porque eternizar os momentos significa, também, passar por eles. Fiz várias coisas que costumava fazer com pessoas que amava. Vi a grama verde onde a minha cachorrinha se deitava e rolava, e caçava calangos. Vi a pista do Eixão Sul, tão cheia de travessias perigosas. Vi, e parecia a mesma cidade, eu é que estava completamente diferente. Estava tão distante daquilo, e um dia fui tão próxima. Era tão comum dirigir naquelas vias, vazias, e me preocupar com os medidores de velocidade, e, ontem, pra mim era tão surreal não olhar nenhuma pessoa andando à pé por elas.
A impressão que eu tinha era de que, quando eu morava em Brasília, eu media a minha velocidade. A vida era mais calma, e eu dava menos arrancos. Agora, eu vou à toda. Eu sinto falta, dentro do meu coração, dos meus anseios de Brasília, que, por parecerem mais longe do ideal, pareciam, por outro lado, mais densos, mais fortes, mais buliçosos. O meu querer hoje, eu pensava, enquanto atravessava o eixão no sentido norte-sul, era menos denso. Menos denso ou mais livre? Talvez mais livre, porque, estando mais perto de meus antigos destinos, eu poderia decidir outros, talvez mais distantes, talvez mais desafiadores. É como se, subindo uma montanha, eu tivesse chegado até onde havia previsto, e descoberto que havia mais, e que, acima de tudo, eu podia mais. Tendo voltado até o início do desabrochar dos sonhos, eu os via desfeitos, porque já realizados. Via tudo tênue, meio nebuloso, como quando eram os sonhos quando se formavam. E, se podia ver antigos sonhos dessa forma, como seriam os novos?
Eu pensava aquilo tudo, enquanto olhava o caminho do Eixão. Vazio. O céu também. Sem nuvens. Só azul, um Sol lancinante, que tornava a visão confusa perto do asfalto. Muito silêncio, poucas curvas. Parecia uma meta só. Respirei, e o ar cortou meu nariz. Saudades daquelas terras vermelhas e planas.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

...

O fato de ninguém o compreender não faz de você um artista.
Do site FFFFound! Dica de Dani Arrais

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Sol

A idéia de que tudo deve ser vivido profundamente, como uma angústia que chega ao coração e se instala com profundidade como uma ferida que cresce até nos fazer questionar a veracidade da existência de nossa pele é enganosa.
No fundo, no fundo, a honestidade é simples e deve ser vivida como o Sol. Está ali, e não se questiona se ilumina mais ou menos. Ele dita seu ciclo, transforma os corações, e o beijo quente passa suave, como se insinuasse. E continua verdadeiro.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Gonzaguinha...

Chega de tentar dissimular
E disfarcar e esconder
O que não da mais pra ocultar
E eu não posso mais calar
já que o brilho desse olhar foi traidor e
Entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar e me cortou

Chega de temer, chorar, sofrer
Sorrir, se dar, e se perder, e se achar
Que tudo aquilo que e viver,
Eu quero mais e me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o sol
Desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manha

Nascendo, rompendo, rasgando,
E tomando meu corpo e então eu
Chorando, sofrendo, gostando, adorando, gritando
Feito louco, alucinado e crianca
Sentindo o meu amor se derramando
não da mais pra segurar
Explode coração

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Vento, leva...

O vento vem e bate no meu rosto, seca meus cabelos, conversa com os meus ouvidos...
O céu azul azula e sela a tranquilidade no meu rosto
Cela, sela, bela, ela, gira, solta o laço....
Eu sinto vontade de abrir os braços e ir, não sei pra onde, não sei pra quê...
É essa a sensação que eu tenho quando danço.
Giro, giro, giro, o vento, saia, vai, ela a brisa leva...
não sei necessariamente pra onde, mas talvez não seja necessário saber.
Não sei pra onde vamos, mas também não quero mais fazer planos.
Talvez não vamos, provavelmente, vou.
Há infinita beleza no deixar-se ir. Deixe a saia te levar na dança, ela roça em seus cabelos e te faz feliz.
A saia da Marylin foi pra cima, ela riu e se deixou envolver pela sedução do mundo. Quem sabe onde o mundo vai nos levar apenas acha que sabe, porque quem sabe é ele.
Gira, gira, gira, folha, leva, flauta, essa, roda, laça...
Fios, soltos, rosto, dentes, língua, leve...
Deixa, vento, leva...